Há mais de 40 anos, desde que 25 praticantes do nudismo foram presos em 1986 durante o regime militar, toda nudez da Praia do Pinho, em Balneário Camboriú – SC não era mais castigada. Conhecida pela reportagemTodo mundo nu em Camboriú” — publicada em 1984 pela Revista Manchete — desde então, a praia se tornou um dos recantos favoritos para catarinenses e turistas amantes do hábito de curtir o Sol ao natural. Agora, no entanto, quem for flagrado nu pode responder por Ato Obsceno, conforme previsto no artigo 233 do Código Penal.

Na última sexta-feira (19), a prefeita de Balneário Camboriú, Juliana Pavan (PSD), revogou a autorização para a prática do naturismo do novo Plano Diretor do município aprovado pela Câmara dos Vereadores. Segundo a Prefeitura, a proibição atende pedidos da Guarda Municipal, da Polícia Militar e da comunidade local pois a praia teria “perdido o verdadeiro significado”, se tornando “um local para prática de atos ilícitos e crimes”. Para o Poder Executivo, a conduta estava prejudicando até mesmo as praias vizinhas.

A proposta de revogação da área foi protocolada em 2022 pelo vereador Anderson Barros (PL), que há meses vem denunciando estas supostas práticas. Em entrevista, Barros já havia afirmado existir dificuldade de fiscalização por parte da PM porque “ninguém quer trabalhar próximo devido à prática do naturismo”.

“Quando fizemos a audiência pública, apresentamos vários argumentos e informações que nos fizeram tomar a decisão de proibir a prática do naturismo na praia. Inclusive, durante a audiência, infelizmente, não conseguimos publicar os vídeos que são produzidos para sites de práticas promíscuas, sites pornôs e tudo mais. Tudo isso, dentro da nossa argumentação, trazia condições negativas para a nossa cidade”, disse o parlamentar ao portal “ND Mais” logo após a notícia da proibição.

Por outro lado, a presidente da FBrN (Federação Brasileira de Naturismo), Paula Silveira, afirma que os crimes mencionados não ocorrem nas áreas reguladas pela entidade e, em nota oficial, questiona, “por que a resposta escolhida foi abolir o naturismo, em vez de fortalecer a segurança, a fiscalização e a aplicação da lei?”

“Infelizmente, a falta de ação do poder público e a desenfreada ação imobiliária induzidos pela política, jogam a culpa no naturismo. Não foi falta de solicitações de segurança, pois essas ações criminosas, tanto sociais como ambientais, não ocorrem na faixa de areia e sim na trilha que é uma área pública. Nos solidarizamos com todos os naturistas e continuaremos a nossa luta e busca por mais áreas naturistas pelo Brasil”, denuncia a presidente em entrevista ao Viagem em Pauta.

Praia do Pinho colocava Balneário Camboriú no mapa mundi do nudismo

Há décadas a Praia do Pinho reúne homens e mulheres que procuram liberdade e contato com a natureza (Foto: Reprodução/Praia do Pinho)
Há décadas a Praia do Pinho reúne homens e mulheres que procuram liberdade e contato com a natureza (Foto: Reprodução/Praia do Pinho)

Localizada a 15km do centro de Camboriú, a Praia do Pinho fica entre Laranjeiras e do Estaleirinho. São 500m de uma faixa de areias grossas, além da exuberante Mata Atlântica e das imponentes encostas rochosas em seu entorno — que lhe conferem a privacidade necessária —,  chama a atenção dos visitantes sobretudo pelo mar agitado e sua infraestrutura, incluindo campings, pousadas, restaurantes e até estacionamento privativo.

Pioneira do naturismo no Brasil, tornou-se reconhecida oficialmente como um local para a prática naturista em 1988. Desde então atrai banhistas e curiosos do Brasil e do exterior. Em 2004, figurou em quinto lugar entre as mais belas do Guia de Melhores Praias do Mundo de acordo com a FBrN.

“Naturismo não é nudismo desordenado”: Federação responde com preocupação à proibição

Em um comunicado oficial FBrN reagiu com preocupação à proibição do nudismo na  Praia do Pinho, pelo novo plano diretor de Balneário Camboriú. A entidade classificou como “uma perda histórica, cultural e social, fruto de omissões, desinformação, interesses paralelos e intolerância”.

A Federação, destacou que a área “por décadas representou um ambiente de convivência respeitosa, liberdade responsável e contato consciente com a natureza”. Além disso, relembra que frequentadores compartilham valores como, por exemplo, “respeito mútuo, convivência social, ética, preservação ambiental e responsabilidade individual”.

Confira a nota completa abaixo:

“A Federação Brasileira de Naturismo (FBrN) manifesta profunda preocupação e pesar diante do encerramento da prática do naturismo na Praia do Pinho, em Balneário Camboriú, Santa Catarina, em decorrência da aprovação da PL 10/2022 e das alterações introduzidas pelo novo Plano Diretor do município.

A Praia do Pinho não é apenas um espaço geográfico. Trata-se de um marco histórico do naturismo brasileiro, reconhecido nacional e internacionalmente, que por décadas representou um ambiente de convivência respeitosa, liberdade responsável e contato consciente com a natureza.

É fundamental esclarecer à sociedade alguns pontos que têm sido, reiteradamente, confundidos ou utilizados de forma inadequada no debate público.

Naturismo não é nudismo desordenado

O naturismo é uma prática regulamentada, baseada em valores claros: respeito mútuo, convivência social, ética, preservação ambiental e responsabilidade individual. Não se confunde, em hipótese alguma, com comportamentos inadequados, atos obscenos ou crimes sexuais.

Crimes são crimes — independentemente de onde ocorram — e devem ser combatidos com fiscalização, investigação e punição, não com a extinção de uma prática legítima e reconhecida mundialmente.

Criminalidade e omissão do poder público

Os próprios debates realizados na Câmara Municipal evidenciaram que práticas criminosas, inclusive de natureza sexual e relacionadas ao uso de drogas, ocorrem em diversos espaços públicos de Balneário Camboriú, e não exclusivamente na Praia do Pinho.

Diante disso, questionamos:

Por que a resposta escolhida foi abolir o naturismo, em vez de fortalecer a segurança, a fiscalização e a aplicação da lei?

Punir corretamente uma minoria que age fora das normas sempre foi, e continua sendo, mais eficaz do que eliminar um direito coletivo por falhas de gestão e ausência do Estado.

Ausência de associação local e responsabilidade compartilhada

Reconhecemos que a ausência de uma associação naturista local, forte e atuante, contribuiu para o enfraquecimento da defesa do espaço. Uma sociedade organizada é sempre mais respeitada — porém, também sabemos que nem sempre é fácil encontrar pessoas dispostas a assumir responsabilidades, enfrentar críticas e “colocar a cara a tapa”.

Ainda assim, a falta de organização civil não justifica a supressão de um direito cultural e social, especialmente quando existem instrumentos legais e administrativos para coibir abusos.

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